Qual era o propósito de Mega Man Fully Charged?


     Se a algum tempo atrás ainda havia a esperança de que a animação Mega Man Fully Charged ganharia uma segunda temporada, hoje essa chance é tão desprezível que o projeto já pode ser considerado um fracasso. Sua equipe foi dissolvida, contratos foram encerrados e as produtoras envolvidas seguiram em frente. Mas há o que se lamentar? Ainda hoje, fico confuso com qual era o objetivo dessa animação.

     Em um contexto geral, não há muito mistério nas razões pelo qual vídeo games ganham adaptações em outras mídias. Na maioria dos casos, essas produções visam servir de propaganda para os jogos e seus demais produtos licenciados. É o caso do anime de Pokémon, por exemplo. Outros casos vão em uma direção um tanto diferente. Uma animação pode ser produzida com a intenção de capitalizar em cima de um produto de sucesso. Essa me parece ser a razão da animação de Castlevania e de Arcane. 

     O problema é que Fully Charged não me parece muito bom em nenhuma dessas funções. Sendo lançada próximo de Mega Man 11, Mega Man Fully Charged pouco dialoga com esse jogo. É nítido que a intenção ali foi fazer algo diferente dos jogos, o que não é necessariamente um problema. E apesar dos muitos elementos da série clássica presentes, a animação é distinta demais para ser encarada mesmo como uma livre adaptação. Nesse sentido, o Mega Man da Ruby-Spears era um produto mais bem pensado. Com todas as liberdades criativas tomadas, ainda sim era possível verificar que os principais elementos da série clássica estavam presentes nessa animação. Era uma animação que vendia os jogos para o público ocidental.

     Quanto ao segundo caso? Bem, aqui as coisas pioram. Fãs são, por sua natureza, puristas. Em sua sina de sacralizar até o mais banal dos elementos de caracterização, fãs possuem uma relação de eterno conflito com adaptações. Por um lado, o fã almeja as adaptações como uma nova forma de consumir seu objeto de adoração. Por outro, justamente por essa adoração exacerbada, o fã tender a tratar qualquer mudança feita pelas adaptações como sacrilégio. Obviamente que nem todos são assim, mas é esse o comportamento médio que se percebe ao verificar como grupos de fãs reagem a adaptações se comparados ao público geral.

     Logo, Fully Charged já nasceu com grande potencial de desagradar fãs. Mesmo que Mega Man seja uma franquia cuja natureza é se reinventar em várias encarnações diferentes, é de se imaginar que haveria rejeição a essa animação devido a ela não focar em de fato adaptar os jogos, mas sim em criar algo novo a partir deles. Isso não significa que todos os fãs dos irão se desagradar com o produto em questão, pois além de contar com muitos elementos característicos de Mega Man, novidades podem ser bem vindas se bem executadas. Porém, fica claro que, assim como o objetivo dessa animação não era promover os jogos, ele também não era agradar os fãs. O que leva a questão: quem é o público dessa animação?

     A resposta, na verdade, é bem simples: as crianças. Mesmo sem vender nenhum jogo em questão, essa animação poderia muito bem servir de primeiro contato de um público jovem com o nome Mega Man. E esse público, já cativado pelo personagem, poderia vir a se tornar consumidor dos jogos. É uma forma mais indireta de se tentar conquistar público, mas que pode funcionar. Mas para isso, era preciso alcançar o público infantil, objetivo esse que também não foi alcançado.

     Ao ser exibida em horários inóspitos do Cartoon Network, a Fully Charged acabou não conseguindo a devida audiência, o que a levou a não vender brinquedos o suficiente para gerar lucro, a levando ao seu atual estado. Além disso, o Cartoon Network pouco fez para promover Fully Charged em suas redes, preferindo focar em seus produtos oficiais. O que é uma postura até coerente e previsível, que poderia ter sido contornada levando a animação a outros canais ou negociando melhor a exibição da animação. 

     Observando todas essas informações em conjunto, a sensação que se tem é que faltou foco na hora de conceber essa animação. Um produto para o público geral não precisa alienar os fãs, um produto com elementos inéditos não precisa se distanciar dos jogos e um produto feito para o público infantil não precisa depender apenas desse público para se manter. Infelizmente, essa falta de foco fez mais um projeto envolvendo Mega Man encontrar seu fim antes de explorar todo seu potencial, como já foi o caso das HQs de Mega Man da Dreamwave e Archie Comics, de jogos como Mega Man Universe e dos remakes de PSP da série Clássica e X, entre outros infindáveis exemplos. É algo que até mesmo quem não gostou da animação deveria lamentar, pois a cada porta que se fecha, menos oportunidades poderão surgir futuramente.

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