Mega Man Fully Charged: esse é mesmo o caminho certo?

(Imagem: divulgação)

     Aos fãs puristas, a última novidade revelada a público pela Man of Action pode - ou não - ser positiva: a nova animação produzida por eles será intitulada de Mega Man: Fully Charged. Aos que não acompanham Mega Man de perto, tal animação foi revelada a público em 2016, mas apenas nos últimos dias ela ganhou tal subtítulo. E mais que um mero detalhe, tal título, ao se acumular com várias pequenas novidades, da a essa nova animação um quê de algo novo e a distancia um pouco da série clássica. Ou seja, simplificadamente, é como se essa animação fosse uma nova sub-série levemente baseada na série clássica. Ela apenas parte de alguns nomes e premissas para entregar algo novo, com identidade própria. Conceitualmente, nada muito diferente do que Battle Network fez no passado. Porém, Battle Network nasceu diretamente das mãos da Capcom. E nasceu com todo um conceito diferente por trás. Não chega a ser o caso dessa animação, e é aqui que os problemas começam.

Personagem inédito ainda não identificado. Ainda não há imagem em
 maior resolução desse personagem (Imagem: Rockman Corner)

     Além do título, quero destacar mais duas coisas. Uma é o referido nome do vilão dessa animação. Não, não é Dr. Wily, ou ao menos não apenas Wily: o vilão nomeado na última sinopse dessa animação chama-se Sargent Night. Sim, já tivemos americanos colocando terroristas como vilões de Mega Man (se lembram da HQ da Archie Comics?) agora colocam militares. Só falta colocarem russos que todas as cotas de vilão genérico estarão preenchidas (pensando bem, isso os jogos já fizeram). O outro detalhe, talvez não mais relevante no final das contas, mas que mais me causou espanto é o visual de um personagem inédito (imagem acima). Ainda não nomeado e presente apenas em uma imagem de baixa resolução, o personagem aparenta ser algum robot-master. Além de - até onde se pode ver - muito parecido com Starscream, de Transformers. E aqui me alongarei um pouco.

Starscream (Imagem: Villains Wiki)

     Não sou um grande conhecedor de Transformers como conjunto de séries. Por ser fã de mecha, sci-fi e figures, inevitavelmente eu li a respeito da franquia e aprendi ao menos o básico de sua tragetória. Assisti algumas animações, li algumas HQs e passei a fugir dos filmes do Michael Bay como o diabo foge da cruz, mas não necessariamente fujo de Transformers. E digo tudo isso para esclarecer que não sou um fã dessa franquia, mas também não desgosto. Quando algo bom relacionado a Transformers chega até mim, eu aproveito. Dito isso, essa possível inspiração em Transformers não só me desagrada como aponta algo ainda mais interessante: a Man of Action parece não saber onde buscar referências do que fazer com Mega Man.

Mega Man da Dreamwave (Imagem: Hardcore Gaming 101)

     Aqui é onde os otakus irão ao delírio. Dirão que americanos não entendem nada de "cultura japonesa" (usar esse termo para se referir a indústria cultural deveria ser crime, mas deixemos isso para outro dia) ou coisas do tipo. E muitos não entendem mesmo, assim como a reciproca é tão verdadeira quanto. Mas analisando algumas das adaptações americanas de Mega Man, da pra ver que em dados casos, os autores entendiam minimamente o que tinham em mãos. A subestimada HQ da Dreamwave era um exemplo: apesar de recorrer a clichês escolares americanizados extremamente batidos e irritantes (o bully, o baile...) a ideia de colocar Mega Man na escola causa ecos em Astroboy, que também fazia o mesmo. E era ali que a magia acontecia: além de aproximar a figura heroica de outras crianças como ele, tal medida gera não apenas elenco de apoio na mesma faixa de idade do protagonista (e de seu público) como também indivíduos no qual os sacrifícios do protagonista serão sentidos. Ali, ele não seria humano o suficiente para os outros humanos, mas era humano demais para ser tratado como apenas uma máquina. Ele teria sempre que se provar em meio aos outros humanos a sua volta. Essa é sempre uma temática boa para se abordar quando o assunto é robôs. Mas Astroboy é apenas a referência mais óbvia, mas não a única.

Robôs de Mazinger Z e Getter Robo, de Go Nagai e Ken Ishikawa

     Mega Man é fruto da cultura pop japonesa. Apesar de referências pontuais a obras ocidentais, as principais referências de Mega Man vieram do Japão. A cultura pop japonesa, principalmente entre os anos 60 e 80, era entupida de super robôs, naves, espaço e heróis. Parecem temas familiares? Tematicamente, heróis orientais e ocidentais não divergem tanto. Porém, a iconografia de ambos é diferente. E entre esse emaranhado de referências, talvez a menos percebida pelo público ocidental é Mazinger Z. Pioneira no gênero de "robôs gigantes", o visual dos robôs de Mazinger é talvez a grande referência visual por trás dos designs das séries clássica e X. As botas grandes, as temáticas bizarras, as formas volumosas e arredondadas, tudo isso veio de Mazinger. Inafune pode até não admitir - se é que já não admitiu - mas duvido que o mesmo negue. Os mangás de Shotaro Ishinomori também foram bastante influentes em Mega Man. Além do traço também lembrar Mega Man, a temática envolvendo super cientistas, robôs e afins também é fundamentalmente presente em sua obra. E além disso, o arquétipo dos "herói relutante" tão presente na obra de Ishinomori causou ecos em Mega Man. Proto Man por exemplo, foi baseado em Joe Shimamura, o protagonista de Cyborg 009. X também tem um perfil de personalidade muito próximo ao dos protagonistas de Ishinomori. Ainda sim, quem inspirou o design do novo robot-master foi a série Transformers, que é uma das principais referencias ocidentais no que tange robôs na cultura pop, mas que não teve grande influência em Mega Man. Entendeu o problema?

Cyborg 009, de Shotaro Ishinomori. Notaram os cachecóis dos personagens?
Sim, foi daí que o cachecol de Proto Man veio (Imagem: Let's Anime)

     Ao que parece, a Man of Action não se importou em criar algo próximo dos jogos, tampouco de buscar as referências que os inspiraram. Apesar de escolherem alguns detalhes para usarem de base, na prática eles estão criando algo próprio. O que não é necessariamente ruim, pois isso abre espaço para inovações que não poderiam ser inseridas de outro modo. Por outro, abre espaço para muita descaracterização. Antes de querer dar seu toque pessoal, um autor que tiver a exaustiva tarefa de lidar com uma grande franquia deve, antes de tudo, a aprender a respeitar o material que tem em mãos. E com essas cartas postas a mesa, essa é a hora em que o douto leitor liga os pontos e se pergunta se não seria melhor criar um anime. Algo imerso nessa mesma cultura pop teria melhores chances de entregar algo digno, não? E de fato seria melhor mesmo, ao menos no sentido aqui discutido. Mas a bem da verdade, isso não só não garantiria que tal material fosse bom, como também não garantiria que tal adaptação seria feita de maneira a de fato dialogar com os jogos. Mas dentro do que nos foi apresentado até agora, me limito a debater até esse ponto. Ainda haverá outras oportunidades de debater os caminhos que a Capcom escolheu, principalmente quando mais informações forem reveladas.

     Aos que quiserem outra opinião, o Rockman Central tem outro texto analisando essa vindoura animação, mas por um prisma mais positivo. Vejam aqui.
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